A tragédia em Petrópolis: um ciclo que se repete

A tragédia em Petrópolis, ocorrida no dia 15 de fevereiro, deixando um rastro de 233 mortos e mais de 900 pessoas desalojadas e desabrigadas é o resultado de décadas de omissão do Poder Público e de boa parte da sociedade petropolitana, que também foi omissa em não participar da construção e cobrar políticas públicas para atender os petropolitanos e, principalmente, os mais carentes. (Foto: TV Brasil)

Mas, não podemos ignorar de forma nenhuma o que vem ocorrendo no planeta com a mudança climática e Petrópolis não está numa bolha, por isso sofre também os impactos desta mudança. Petropolitanos ou não, quem mora na cidade há mais de 50 anos sabe que o clima petropolitano mudou nos últimos 30 anos.

A chuva fina no período do inverno é algo raro, assim como o nevoeiro que tomava conta de todo o primeiro distrito, hoje também é um fenômeno quase raro. O calor com o sol forte é algo também que foi alterado e com isso, o verão petropolitano, mesmo que seja ainda melhor que algumas capitais como o Rio de Janeiro, não é o mesmo de 20 anos atrás.

Portanto, a tragédia do dia 15 de fevereiro tem que nos levar a uma reflexão rápida, com medidas urgentes e eficazes e com o olhar no futuro da cidade para que isto não volte a ocorrer. Mas, se acontecer por se tratar de um fenômeno da natureza agravado pela mudança climática, que não tire a vida de milhares de petropolitanos.

Ouvi de um amigo, residente em outro estado: “Você fala com tanta naturalidade sobre o que aconteceu, falando sobre mortes e como as pessoas perderam suas casas como se fosse algo muito natural”.

No momento do comentário fiquei chateado. Estava angustiado e sofrendo com as vidas perdidas e por ter minha casa, um sonho de 25 anos, interditada e sem previsão de retorno. Depois com calma, pensando melhor, dei razão ao meu amigo, pois as tragédias em Petrópolis se repetem desde o tempo do Imperador Dom Pedro II, e a sensação é justamente essa: as barreiras são algo natural em Petrópolis. O que não é natural são as vidas perdidas.

Este é um problema histórico, pois desde a fundação da cidade há notícias de desastres como este, mas também é um problema social, pela falta de uma política habitacional que busque dar dignidade aos petropolitanos. (Sugiro a leitura do artigo da jornalista Estela Siqueira que fala sobre as 652 mortes em 34 anos, clique aqui). E, todas as vezes que um desastre desse acontece entram em ação os projetos para construção de habitação popular e mais recentemente, o Aluguel Social, que deveria ser uma medida paliativa e emergencial, vem se transformando numa política de governo.

A falta de uma política habitacional e de programas que garanta a população de baixa renda conquistar seu imóvel próprio. Aliado aos baixos salários, custo de vida elevado e a especulação imobiliária empurra a população para locais de risco, para o alto dos morros e margens dos rios. Ninguém mora num local de perigo porque quer. Todos querem e sonham com um lugar seguro para viver sua história e cuidar de seus familiares.

No entanto, considerando que a chuva do dia 15 de fevereiro foi um fenômeno da natureza, como disse agravado pela mudança climática, que medidas são possíveis tomar para evitar a perda de tantas vidas. É preciso ter uma política pública de prevenção a desastres como ocorre em diversos países. É preciso promover uma mudança cultural no país e se o governo federal não se propõe a fazer, que o Governo Municipal tome as medidas necessárias para promover essa mudança, começando pela formação das novas gerações.

Vou ficando por aqui, mas como está no título é a primeira parte de uma série de textos que vou produzir sobre o assunto. Neste momento lembro do saudoso Philippe Guedon, que lutou bravamente pela participação popular para se construir uma cidade com políticas públicas e uma cidade planejada.

Ao olhar a hora, percebi que termino este texto há exatos um mês quando celebrei meus 58 anos, e, dois dias depois sai de casa correndo rumo a um local seguro, sem a perspectiva se poderia voltar ou não para minha casa. De fato, não voltei. Ela está interditada. Alguns dias me dei conta que deixei de ser o repórter apurando matéria sobre tragédia, mas fazia parte dela como vítima.

O meu abraço e solidariedade aos amigos, conhecidos e todos que perderam seus familiares. Uma realidade triste que se repete e que juntos podemos mudar para que não volte a repetir-se.

Paz e bem, na alegria do Senhor Jesus e com as bençãos da Virgem Maria, um abraço a todos e todas.

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